“Achei que convinha mais a pena correr perigo
com o que era justo do que, com medo da morte e do cárcere, concordar com o que era injusto.” SOCRATES

“… in Tiananmen Square/ Lost my baby there/ My yellow rose e lá lá lá…


Ao som das metralhadoras de Watching TV começo este post… ainda não sei exatamente sobre o que irei escrever, mas sei lá, senti vontade ou necessidade (ou os dois) de escrever algo. Na verdade a minha intenção era fazer um papel de carta e, ao olhar minhas fotos, me deparei com uma em especial, que marcou e nunca saiu do pensamento. Sabe aquelas imagens que falam por si, que tu bate o olho e fica tentando imaginar o contexto, sentimentos, medos? A primeira vez que vi esta imagem foi no Jornal Correio do Povo e de cara me chamou a atenção.

Praça da Paz Celestial/Pequim, em 5 de junho de 1989

Um jovem chinês, conhecido como “o homem dos tanques”, em sinal de protesto, tentou impedir a passagem de tanques, parando na sua frente, com quem diz: “por aqui ninguém passa!”. Uma luta inglória. Por alguns momentos ele até conseguiu. Foi uma cena surreal: o tanque da frente tentando desviar e ele desviando junto, até que o comboio parou. Olhando a imagem dá para se ouvir o silêncio. Ensurdecedor. Acredito que as pessoas nem respiravam naquela hora. Seria poético se não fosse triste. Logo após, o ching ling subiu no primeiro tanque e conversou algo com o piloto. O que eles falaram ninguém sabe, ninguém nunca saberá. Em seguida foi levado por dois homens de azul. A testemunha Charlie Cole acredita que o homem foi levado pela polícia secreta e foi um dos muitos executados, já a jornalista Jan Wong afirma que ele se refugiou em uma cidadezinha no interior da China.

Será que este foi um ato de bravura ou desespero? O que será que se passou na cabeça dele naquele momento? E do cara que pilotava o tanque? Tente se colocar em seu lugar. Tanto faz se for do piloto ou do rebelde desconhecido. Cada um teve seu momento de desespero, de incerteza e medo do desconhecido.

Fiquei emocionado ao ler isso. Por alguns momentos a história dele se confundiu com a minha. Não, não tive nenhum ato heróico e sim, algumas atitudes tomadas por puro desespero ou necessidade. E eu acho que essa foi a força que impulsionou o jovem chinês naquele momento. Lógico que ele teve que ter muita coragem naquela hora, mas quando a gente não vê outra saída a coragem vem com uma força tal que a gente nem sonhava ter e é esta força que nos leva a seguir sempre em frente.

A minha saída de Ijuí foi assim, meio que levada pelo desespero ou por ser a única esperança ou saída naquele momento. Tinha meus 18 ou 19 anos e estava sem emprego. Minha mãe estava sem emprego. E, lógico, nós estávamos sem dinheiro. A empresa onde trabalhava há anos havia falido e a situação estava ficando difícil, sem perspectivas e sem futuro. Inclusive sem presente. E, quando tudo parecia perdido surgiu uma oportunidade para tentar a vida em Campo Bom, com o sonho de um bom emprego e uma vida com mais dignidade. Abraçamos com as duas mãos e fomos rumo ao desconhecido. E sabe que isso é legal?! Lógico que dá um medo enorme, frio na barriga, noites e noites sem conseguir dormir direito de tanta preocupação. Mas é uma batalha compensadora e cresci muito com tudo que aconteceu.

Uma vez um capitão levou seus soldados à guerra e após passarem por uma ponte ordenou que a ponte fosse destruída. Foi para mostrar ao seu exército que não havia como voltar e a única alternativa deles era vencer a guerra.

E foi com esse espírito que seguimos para Campo Bom. Não tinha como voltar, pois a ponte foi quebrada e tudo ficou para trás. Era dar certo ou dar certo, de um jeito ou de outro, por bem ou por mal.

Mas voltando ao “homem dos tanques”, dizem que ele carregava duas sacolas, uma em cada mão. Será que ele imaginava tal ato? Eu acho que não. Não acredito que ele tenha saído de casa na manhã daquele dia 05 de junho de 1989 e pensado: “humm, o que vou fazer hoje? Ah já sei, vou parar em frente aos tanques para ver o que acontece…” Não meus amigos, aquela foi uma atitude de momento. Este jovem deve ter saído de casa pensando que aquele seria mais um dia em sua vida e, ao ver os tanques se aproximando, brotou um sentimento de revolta e indignação, talvez também de desilusão e falta de esperança. E ele soube, naquele exato momento que não poderia ficar parado. Sua hora havia chegado.

Alguém já parou para pensar na solidão que aquele homem sentiu naquele momento, parado em frente aos tanques, que se aproximavam? Que chances ele tinha? Relatos contam que no dia anterior (04/06/1989) tanques esmagaram veículos e pessoas que estavam pelo caminho e ele devia saber disso. Quais seus pensamentos? E os sentimentos: medo, raiva, tristeza, indignação, desilusão? Cara, e as sacolas? O que teria nas sacolas? Não tem como não pensar nisso. Seriam compras? Roupas? Livros?

Para alguns é apenas mais uma foto… eu vejo poesia, sentimentos e algo que não sei bem o que é mas que toca fundo na alma. A foto (montagem) dos operários é outra que me chama muito a atenção.


 

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Comentários em: "O Homem dos Tanques" (2)

  1. Weini disse:

    3 anos depois eu vejo seu blog. Gostei do que li. Tomara que sua historia tenha sido de vitória.

    facebook/oliveirapop

  2. Marc Dias disse:

    Amigo uma outra foto que marcou foi aquela do fotógrafo Kevin Carter, que capturou uma imagem de uma criança no Sudão com um abutre atrás, uma espécie de “vulto da morte”. A criança sobreviveu e Kevin, apesar de receber um Pulitzer pela foto, suicidou-se.

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