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Lembranças que o tempo não apaga

Ilusões da Vida – Francisco Otaviano

“Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu:
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.”

Acho que serei um eterno saudosista, pois volta e meia fico lembrando momentos do passado. Sim, eu vivo o presente, talvez não como devesse, mas tenho os pés no chão (muitas vezes a cabeça na lua) e penso sim no futuro. Mas falar da infância e relembrar os momentos vividos com meus amigos tem um gostinho de saudade e de certa forma alegra a alma. Acho que já escrevi esse pensamento do Mário Quintana, mas ele é tão verdadeiro que não sai do pensamento: “O passado não reconhece seu lugar, está sempre presente.”

E nesses últimos dias tenho conversado com amigos de infância, pessoas que não vejo há anos… Alguns há muitos e muitos anos. Não vou dizer quantos, pois isso me faz parecer mais velho… Eu sei… Sou velho, mas não me sinto assim, no fundo no fundo sei que serei uma eterna criança, tanto é que ontem fui ver Zé Colméia no cinema… rs.

Então foi inevitável uma volta ao passado e volta e meia eu me pegava rindo sozinho… Nossa, tem coisas que eu nem lembrava mais… Momentos que estavam lá perdidos em algum canto da memória que eu nem sonhava mais lembrar. É como se fosse uma descida ao porão e abrir aquelas caixas empoeiradas, com teias de aranha. E quando conversamos com velhos amigos algumas palavras funcionam como se fossem as chaves de um velho baú, assim como os cheiros. Quantas vezes a gente sente um cheiro ou um gosto de algo e logo em seguida vem uma memória da infância?

Nunca fui um aluno exemplar, não era o melhor da turma, mas minhas notas eram boas e sempre passei por média, pelo menos no 1° grau. Confesso que às vezes passava com os pelinhos na cerca, mas passava. Conversando com o Sérgio me lembrei da primeira vez que me mandaram sair da sala. Aliás, eu e o Sérgio fomos mandados embora… Lembras disso Sérgio? Foi na 4ª série e a gente tinha que entregar uma redação… Na verdade tínhamos que escrever uma carta e eu não fiz. Bom, eu não sabia que tinha que escrever… Sei lá, devo ter dormido na aula ou, como sempre, naquele momento em que foi passada a tarefa deveria estar sonhando acordado. Sabe quando teu corpo está num lugar e o pensamento voando longe longe longe… Mas enfim, quis dar uma de esperto e falei que tinha esquecido a lição em casa. Pensei comigo, falo que vou até em casa buscar e faço rapidinho. Plano perfeito. Já o Sérgio admitiu que não havia feito. Era o certo a fazer e eu não fiz. Bom, o professor Otto nos mandou embora, eu para buscar a tal carta e o Sérgio para fazer e só depois voltar. Fui pra casa e surpresa: não havia ninguém. E agora? Como vou escrever? Voltei pra aula e falei o que não tive como entrar em casa. E isso era verdade, mas lógico que o professor sabia da minha mentirinha inicial. E o professor me mandou embora por não ter entregado a lição. Lembro que não fui pra casa, fui brincar na outra rua. A prefeitura tinha podado algumas arvores e os ramos estavam amontoados num canto. Fiquei ali brincando e quando vi meus coleguinhas passando na rua me escondi, pois estava envergonhado. Lição aprendida. Saudade do professor Otto, infelizmente ele já é falecido, mas guardo com carinho tudo que ele me ensinou. Aliás, estudar na Escola Luterana Emanuel foi uma ótima experiência, pois tive bons professores e conheci pessoas que mantenho contato até hoje. E a escola era “enorme”, tinham duas salas de aula: à tarde iam os alunos de 1ª e 2ª e de manhã os de 3ª e 4ª séries. Na sala da frente havia uma mesa de knips e a gente adorava jogar. A Silvana sempre “roubava”, a Fabiana também.  Tá, não era bem um roubo, mas elas levavam certa vantagem, pois levavam as pedrinhas com os dedos além do limite do tabuleiro.

Lembrei de outra agora… O pior frango que levei como goleiro, pelo menos foi o que mais marcou. Meu pai trabalhava na Prefeitura Municipal e conseguiu uma doação de pares de tênis para todos os alunos da escola e organizou um torneio de futebol na Sociedade Ginástica. E eu me escalei como goleiro, pois tinha o Leão como ídolo e uma camisa toda estofada. Me sentia o máximo. Tá, hoje em dia meu conceito do Leão é outro, mas naquela época era o meu herói. Bom, não lembro se fiz alguma defesa, mas lembro que a bola veio em minha direção, fraquinha, quase parando. Eu me agachei para pegar e… e… e… Bom, digamos que a bola passou pelo meio das pernas e entrou mansamente… Nem sei se chegou a balançar a rede. Lógico que abandonei a carreira de goleiro e meus ídolos passaram a ser o Renato Portalupi e o Hugo De León.

O tempo passa e a vida segue seu rumo…

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Arquivado em Filosofia Barata